sábado, 13 de dezembro de 2008

Quando a janela azul fechar

Sem saber o que falar, tento buscar no silêncio palavras de consolo que possam esconder a saudade e a vontade de ter teu carinho. A noite, embriagada de tanta noite, me faz procurar nas nuvens figuras que possam fazer o tempo passar mais depressa. A cor rosada do céu de nenhum brilho parece esfriar meu corpo que se encolhe imaginando tuas mãos brincando com meus cabelos enquanto te conto piadas bobas te arrancando sorrisos que divertem o escuro.
Lembro de tuas unhas e da sujeira que mantinha debaixo delas. Lembro de teus dedos delicados e poderia até desenhar as tuas digitais. Lembro que os dias passam e o verão se aproxima. No verão as pessoas ficam mais excitantes. Seus sexos suam mais liberando odores que em mim ativam o falo. O suor dos corpos é mais seboso. Os corpos são mais sebosos. Mas o teu não. O teu parece ter sempre o frescor de noites frias de outono. A tua pele macia, sempre tão fria, me arranca cala frios cada vez que me diz safadezas no ouvido. Que tesão meu bem.
A imaginação me pune e percebo que a janela azul permanece aberta. Uma taça de vinho me consola. Esse gosto seco de vida invade meu corpo numa contínua tentativa de tentar me drogar. A fumaça do cigarro esquecida ao lado parece dissipar as nuvens rosadas tentando me mostrar que os pontinhos brilhantes continuam lá. A noite persiste em existir. O tempo. A distância.
Percebo que tudo continuará igual. Que você ainda está aí. Você está bem meu bem? Será que está com outro alguém? Talvez esteja pensando em mim também. Ou, talvez, esteja apenas dormindo. Eu continuo aqui. O frio também.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Assim como Maiane

Hoje pela terceira vez me sinto um adolescente da década de 90. Trancado no quarto com discos de vinil pendurados na parede, acendo um cigarro escondido para aliviar a euforia depois de ter me masturbado enquanto escutava Renato Russo cantar as misérias do mundo. Escrevo em meu caderno como se fosse um diário, já que não tenho com quem conversar. Hoje, todos estão chatos. O celular não toca.
Não sei bem o que escrever aqui. Não me sinto muito bem. Ele, o dia, não começou da maneira que parecia começar. Fui o segundo a chegar à sala de aula, atrás apenas de Maiane. Mas é impossível chegar antes de Maiane. Maiane é sempre a primeira a chegar. Para falar a verdade, nunca ninguém chegou antes de Maiane. Nem mesmo os professores chegam antes de Maiane. Maiane é realmente demais! Porque estou falando de Maiane mesmo? Será que estou apaixonado por Maiane? Nãaaao! Ah! Lembrei. Por ser o segundo a chegar à sala, depois de Maiane, ganhei um presente do professor. Sentei até na frente, prestei atenção no que ele dizia e até participei da aula. Sentia-me vitorioso. Era como se estivesse voltando à época de aluno exemplar, assim como Maiane.
O celular tocou desviando a atenção de todos em minha direção. Olhei para ver quem era ao mesmo tempo em que levantava pra sair da sala, com as bochechas e orelhas vermelhas por ter atrapalhado a aula, por ter atrapalhado Maiane.
O nome do parasita que aparecia na tela do celular me roubava um sorriso e sua voz fazia-me acalmar as bochechas e esfriar as orelhas.
Logo tudo mudava e o que era sorriso virava decepção. A alegria dava lugar ao incômodo. A ressaca das várias cervejas do dia anterior parecia chegar cm toda força.
Voltava pra sala, mas ela não era mais a mesma coisa, apesar de Maiane ainda estar nela e acompanhar com a cabeça os movimentos do professor. Não consegui ficar por muito tempo.
Minha casa parecia mais ser mais acolhedora e menos cruel. Só queria dormir, dormir, dormir e acordar pra dormir novamente.
As duas tentativas de falar com o parasita não me deram nenhuma resposta. Agora Astrude chegou. Agora eu vou beber novamente. Encher a cara mesmo, como se estivesse dando força à minha dor. Talvez até me torne um parasita. Talvez até encontre Maiane.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira...


Cachoeira, 24 de setembro de 2008

A fumaça escura que deixa meus dedos fedorentos e amarelados penetra por minha boca até meus pulmões e me faz prender a respiração por alguns segundos proporciona-me tranqüilidade e bem-estar.
Essa onda contra o tabagismo pregada pelos mais diferenciados meios de comunicação me exclui cada vez mais dessa sociedade hipócrita e decadente que impõe àqueles atrasados mentais o que é bom ou ruim para suas próprias vidas.
Quem disse que quero parar de fumar? Quem disse que devo me privar de me sentir bem por ser vítima de um desprezível empinar de um nariz alheio ou pelo olhar de repúdio de um idiota qualquer.
Fique sabendo que fumar não é apenas um gesto banal que realizamos. É muito mais que isso. Um cigarro é o completar a satisfação da barriga cheia, é o deixar pingar a última gota de esperma depois de uma transa que durou horas, é o sentir-se bem numa tarde de domingo assistindo Faustão mesmo sabendo que temos uma prova na segunda pela manhã.
Meu pulmão não é mais o mesmo, e daí? Passamos toda a nossa vida inalando poluentes que nos faz tão mal quanto o cigarro.
O cigarro é responsável por inúmeros cânceres e mortes, e daí? As balas perdidas e os acidentes de trânsito matam mais que o cigarro.
Por que então colocar a culpa em um simples bastãozinho de papel e palha que faz qualquer alegria mais alegre e qualquer depressão mais teatral? Não vejo razão para me censurar.
E mesmo depois de 20 anos, se algum dia um médico me disser que tenho poucos meses de vida, a primeira coisa que farei será fumar um cigarro. Já que fui mais um idiota que acreditei na televisão e suas propagandas antitabagistas e quis satisfazer um capricho seu.
Beijos Mãe. Espero que esteja mais feliz agora, mesmo sabendo que meus prazeres não estão mais completos.


Saudades, Ted Sampaio

Dona Dalva