quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira...


Cachoeira, 24 de setembro de 2008

A fumaça escura que deixa meus dedos fedorentos e amarelados penetra por minha boca até meus pulmões e me faz prender a respiração por alguns segundos proporciona-me tranqüilidade e bem-estar.
Essa onda contra o tabagismo pregada pelos mais diferenciados meios de comunicação me exclui cada vez mais dessa sociedade hipócrita e decadente que impõe àqueles atrasados mentais o que é bom ou ruim para suas próprias vidas.
Quem disse que quero parar de fumar? Quem disse que devo me privar de me sentir bem por ser vítima de um desprezível empinar de um nariz alheio ou pelo olhar de repúdio de um idiota qualquer.
Fique sabendo que fumar não é apenas um gesto banal que realizamos. É muito mais que isso. Um cigarro é o completar a satisfação da barriga cheia, é o deixar pingar a última gota de esperma depois de uma transa que durou horas, é o sentir-se bem numa tarde de domingo assistindo Faustão mesmo sabendo que temos uma prova na segunda pela manhã.
Meu pulmão não é mais o mesmo, e daí? Passamos toda a nossa vida inalando poluentes que nos faz tão mal quanto o cigarro.
O cigarro é responsável por inúmeros cânceres e mortes, e daí? As balas perdidas e os acidentes de trânsito matam mais que o cigarro.
Por que então colocar a culpa em um simples bastãozinho de papel e palha que faz qualquer alegria mais alegre e qualquer depressão mais teatral? Não vejo razão para me censurar.
E mesmo depois de 20 anos, se algum dia um médico me disser que tenho poucos meses de vida, a primeira coisa que farei será fumar um cigarro. Já que fui mais um idiota que acreditei na televisão e suas propagandas antitabagistas e quis satisfazer um capricho seu.
Beijos Mãe. Espero que esteja mais feliz agora, mesmo sabendo que meus prazeres não estão mais completos.


Saudades, Ted Sampaio

Dona Dalva


domingo, 24 de agosto de 2008

Tesão, ciúme e sono

A dor de cabeça era tremenda. Tinha começado a beber, sozinho,por volta das 11h00 e já passavam das 23h00, agora acompanhado por amigos que iam e vinham em movimentos constantes que me deixavam um tanto tonto. Minha boca fedia aos cigarros das duas carteiras fumadas desde a manhã. Minha língua, áspera e amarelada pelos vários copos de cerveja, procurava entre os dentes os restos de carne de um hamburger mal feito da barraquinha da esquina. Meus olhos, quase fechados de tanta boemia, te encontravam em meio a multidão e me faziam sentir o cheiro do teu sexo. Te comia com eles, menos verdes e mais famintos que antes.
O som não era dos melhores, e contribuía para tornar aquele local menos agradável aos meus instintos. A tua voz me incomodava. Queria apenas te ver, te ter, sem nenhum pudor, sem nenhum pavor. Difícil.

Arrodeado por teus amigos, quase desconhecidos, parecia ser estranho ao teu ser. Era como se tudo que tínhamos vivido até ali tivesse escorrido como as gotas na superfície lisa do meu copo de cerveja, que a esta altura já estava quente. Um gole, outro e outro...
O som já não existia mais. No pequeno palco à nossa frente, alguns homens vestidos de vermelho afinavam os instrumentos musicais da banda que estava por vir. Sentindo o teu desprezo e não sentindo o meu corpo, levantei-me em passos falsos e raivosos tentando caminhar em direção ao palco. Triste.
A banda que começava a se apresentar era uma velha conhecida. As batidas fortes do tambor e percussão deixavam um eco em minha mente e me faziam perceber a minha quase embriaguez. Você chegava e em pé ao meu lado me sorria um sorriso apaixonado e me prometia, ao pé do ouvido, uma noite de sexo inesquecivel. Excitante. Já te sentia de volta pra mim. Aos poucos, conversava comigo e até fazia careta. Sorria.
As batidas africanas me faziam dançar em homenagem ao meu orixá. Os pingos da chuva molhavam meu rosto e me faziam esquecer da dor de cabeça que momentos atrás me atormentava. Faziam também que fosses procurar um abrigo. Me chamastes tantas e tantas vezes para tomar banho de chuva e agora corres? Molhado. Mas eu só queria o teu sexo.
Te olhava em baixo daquela cobertura, se divertia à distância. Eu também. Aos poucos, voltava a minha lucidez. A água cumpria este papel e também me deixava com frio. Sumiste.
Sentado num banco de uma pracinha qualquer, esperava por tua volta. Minha boca tremia e minha pele se arrepiava a cada tragada daquele cigarro molhado pelas gotas que escorriam das folhas da árvore ao meu lado. Com a espera, voltava a pensar nas safadezes que faria contigo naquela noite. Você chegou, fomos pra minha casa. Você levou seus amigos. Risos.
Eu, deitado em minha cama, limpo e excitado, vejo você entrar porta a dentro com tesão no olhar. Deita ao meu lado. Me diz que estou estranho. Ganho um beijo no rosto, um "eu te amo" e um "boa noite". Me abraça e dorme.