segunda-feira, 2 de março de 2009

Uma Balada pra gente dançar...

Atrasados. Deslumbrados. Ainda meio eufóricos dos cinco minutos quase corridos do táxi até o bloco. A música dava para ouvir de longe. O som da guitarra e as mãos dos foliões balançando de um lado para o outro faziam o coração bater ainda mais forte e os pelos de todo o corpo arrepiarem. Era uma mistura de agonia e alegria que tomava conta da minha cabeça e me deixava com vontade de sair correndo e gritando.
Comigo estavam minha irmã e Diego, um amigo, conhecido minutos atrás quando pediu para dividir o táxi com a gente. Ele era gaúcho. Estava sozinho no carnaval de Salvador e no bloco também. Foi nosso convidado e mascote. Era engraçado ver seu rosto deslumbrado ao sorrir para todos os lados num questionamento meio que constante: “Que porra é essa meu irmão?” Ele parecia não acreditar que também fazia parte daquela festa. Que estava no carnaval de Salvador, no Bloco Balada ao som do Jammil. Eu também não acreditava que estava ali. Mais parecia o DVD gravado pela banda no carnaval passado. Olhava em minha volta e via que era verdade. A voz de minha irmã me dizendo “A gente ta aqui!” me fazia perceber que o suor escorria pelo meu rosto e o feijão comido minutos atrás ainda estava quente em minha barriga.
Bebia alguns goles de abaíra, fumava mais um cigarro e pulava. Pulava como há muito tempo não pulava. Cantava. Gritava. Parecia entrar em transe. Os calos nos pés adquiridos nas noites anteriores pareciam não existir mais. As pernas mais pareciam próteses inteligentes que respondiam a impulsos nervosos. Os braços, outrora apertados e sufocados pela multidão que se espremiam em pulos compassados, erguiam-se e pareciam pedir para os céus que aquele momento fosse eterno. Que o carnaval não terminasse na quarta-feira de cinzas e aquele bloco não acabasse nas “gordinhas de Ondina”.
Em meio a tantas músicas e empurrões encontrava o rosto de minha irmã molhado por lágrimas e suor. O abraço posterior também me fez chorar ao saber que aquele sonho de muitos anos assistindo Band Folia estava se realizando. Os muitos “Eu ainda estarei lá!” agora já não faziam mais sentido. Eu estava lá. Eu estava no carnaval de Salvador no bloco do Jammil.
A garganta, já quase inflamada de tanta chuva e de tantos gritos, cantava todas as músicas e puxava todo o ar na tentativa de sufocar mais uma lágrima que queria escorrer. Em vão. O aperto, cotoveladas, empurrões de todos os lados e até uma lata de cerveja na testa não eram motivos de nervosismo ou arrependimento. Pelo contrário, faziam parte daquela folia e até acho que sem eles não teriam tanta graça, menos a lata de cerveja na testa, essa doeu bastante e até deixou um galo. Mas não queria saber. Eu estava ali. Eu estava feliz. Pensava na minha mãe, na minha sobrinha, queria que todas elas estivessem comigo ali, compartilhando aquela alegria. Que besteira, elas me tirariam dalí debaixo de tapas. Minha mãe acha que carnaval é festa do diabo (risos).
O tempo ia passando, a cachaça secando, o bloco acabando. Não me lembro de muita coisa que aconteceu. Devo mesmo ter entrado em transe. Apenas flashes me veem à mente. Consigo lembrar de uma certa figura que sempre encontrava exatamente ao lado do trio. Era uma mulher de, mais ou menos, 30 anos, meio gordinha, completamente bêbada. Ela era de Maceió e tinha se perdido dos amigos. Engana-se quem pensa que ela estava preocupada. Junto comigo, pulava e cantava desesperadamente aquelas músicas que demoraram a sair de minha cabeça nos próximos dias. Mas ela se perdeu na multidão, assim como o gaúcho que há muito já não via.
Tuca, o vocalista da banda, anunciava o fim do bloco e cantava uma música lenta (Agora que o verão passou/ Agora que o céu já mudou de cor/ Agora que o carnaval terminou...). Aos poucos ia sentindo minhas pernas e pés. Também sentia um certo incomodo de um dedo cortado em dois lugares e de uma canela sangrando. Não deu tempo. Tudo isso foi esquecido nos segundos posteriores quando o mesmo Tuca desceu no elevador lateral de seu trio e cantou a última canção daquela noite. O aperto mais uma vez se fez presente e o cadaço de meu tênis desamarrado e embaixo de tantos outros tênis me deixava preso ao chão. Pouco tempo. Empurrei o cadaço tênis adentro e pulei mais uma vez, cheguei a tocar na mão de Tuca quando ele deu tchau. “Tchau, I have to go now!”

9 comentários:

Calila das Mercês disse...

Eh Tedinho... vi que foi emocionante seu Carnaval!!

Gostei do post... muito bem escrito!
Parabéns...

Viu né, já sou sua seguidora!!!
Se quiser, passa lá no Cafezinho!

Saudações

Maiane Matos disse...

Tede, ufa! Parece que eu estava lá com vc. Os arrepios tb foram sentidos rsr! Você e os seus textos, fantáticos...sou até suspeita pra falar. Pra sentir de verdade, só estando lá..Um beijo grande no teu coração!Saudades, pequeno.

Marcelle Alves disse...

ahahaha arrasou! Mais um pra provar pro meu namorado que micareta é coisa boa e divina!! Adorei! Me encantei com o seu jeito de transformar "aquela zona" em algo tão sublime.

Marcelle Alves
http://canetadigital.wordpress.com

Ted Sampaio disse...

Olá pessoal. Valeu pelos comentários.

Calila, fico muito feliz em saber que, mesmo depois de muito tempo afastado do blog, vc ainda acompanha esse bando de coisa que escrevo. A preguiça tá muito grande. hahahahaha

Mai, fico muito feliz em saber que vc sentiu um pouco da emoção que senti ao estar nesse bloco. Vc tem que estar presente um dia, mas acho que vai preferir ficar bem no fundo do bloco. kkkkkkk

Marcelle, seja bem vinda ao meu blog. Espero que seu namorado passe a curtir micaretas viu. hehe
E tá convidada a voltar mais vezes.

Tiago Sant'Ana disse...

Rá!
Fico impressionado como a cada dia a gente vai descobrindo a literatura dos coleguinhsa do CAHL.
Nem sabia da existência desse espaço. Vi entre os favoritos da Calila e decidi passar aqui para visitar. Nunca mais tinha feito essa atividade e já tinha esquecido como é bom encontrar blogs a toa e com uma escrita tão interessante e prazerosa.

Nunca experimentei o carnaval de Salvador. Sempre preferi curtir a brisa mal cheirosa das praias poluídas da ilha de Itaparica. A descrição é contagiante. "Um dia eu estarei lá!"

Adicionado aos favoritos.

Tiago Sant'Ana
www.jornalistadepeso.blogspot.com

Poliana disse...

Realmente o carnaval é indecifravel.Mais como sempre vc sabe usar as palavras certas na ocasião pedida.
Bjos !!!!!!

Irmão Diogo disse...

Meu filho, se cortou, levou uma latada, pisão no pé....
Esse é Irmão Ted, nada impedi a alegria de viver ainda mais no carnaval em SSA.
Graças que esse momento histórico na vida de o curte foi narrado tão bem e tão apaixonadamente por ti.

Irmã Diana disse...

Arrepios...
Simplesmente isso... Da pra ouvir a galera gritando e aquele aperto todo, sem contar dos flashs...rsrs
Adorei!!

Parabéns Tedinho...

bet sampaio disse...

então né!rsrsrsr
realmente a cada dia q passa me surpreendo mas com vc seus textos são facinantes,mas voltando ao carnaval rsrsrsrs jamais esquecerei este dia,ainda quando ouco as musicas encho meus olhos de lagrimas e sinto uma alegria imensa dentro de mim rsrs... sem explicação,simplismente te amo.